.das fomes que sentimos

Ela acordou com fome. Muita fome. Por alguns minutos, sentada em sua cama, pensou estar delirando com os pensamentos fugazes que perturbavam sua lucidez. Chacoalhou a cabeça, perdeu o equilíbrio e deixou seu corpo cair novamente sobre o colchão macio e ainda aquecido. Puxou o cobertor lentamente, sentindo uma dor quase que insuportável em seu abdomem. Se aninhou como pode e fechou os olhos. Adormeceu pela quarta vez.

Sonhou com situações inimagináveis para uma pessoa tão pequenina como ela. Sonhou com mudanças significativas no ser humano, evoluções tão necessárias desde sempre. Conseguiu sentir o gosto da felicidade na ponta da língua, enquanto saboreava palavras de amor ditas às pessoas que estimava. Sentiu-se livre, leve, única, especial. Começou a acreditar no que já havia perdido a fé, nas promessas eternas, nos sentimentos, nos ideais surreais. Recriou-se, como se o velho rascunho tivesse sido amassado e jogado fora. Nascia de um sonho alguém totalmente diferente do passado, sem passado e fora do passado.

Não acordou pela quarta vez. O incômodo de antes já não fazia mais sentido. Sua fome era outra, sempre fora outra. Mas nunca  ninguém sequer havia notado.

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